segunda-feira, 16 de junho de 2014

VANDALISMO


(AUGUSTO DOS ANJOS)



Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.]

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos..

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,.
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!




quarta-feira, 20 de março de 2013

 

MEDIEVALISMO E MODERNIDADE DE DANTE, SEGUNDO OTTO MARIA CARPEAUX


Interessante estudo fez o crítico Otto Maria Carpeaux, um dos maiores estudiosos da obra de Dante Alighieri, para a edição da Divina Comédia de 1955 (Editora Calçadense, SP, tradução de José Pedro Xavier Pinheiro).

Segundo Carpeaux, o próprio Dante teria afirmado no Convivio, que o seu poema, hoje matriz  referencial de toda a produção poética da humanidade, teria quatro linhas de interpretação, quatro sentidos: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico ou místico.

"Não conseguiremos separar perfeitamente os 'quatro sentidos' que nos parecem muito entrelaçados. Contudo, é um roteiro, talvez capaz de orientar-nos na 'selva oscura' (Inferno, 1,2). 

É preciso entender a posição de Dante em relação a seu tempo e mesmo as posições contrárias à sua obra, para se entender a questão do alegórico e do místico. "...que tem de dizer a nós, homens modernos, - indaga-se o crítico suíço - esse poeta morto há mais de seiscentos anos, esse homem medieval?"

Ao longo desse extenso estudo, o autor vai ele mesmo respondendo: "Dante é, não podemos eliminar o fato, o poeta máximo de uma época remota." "Dante é o primeiro poeta dessas literaturas (medievais) que até hoje continua lido." Citado no ensaio, De Sanctis achava ser Dante "o último homem medieval".

Contudo, Carpeaux refuta algumas posições acerca do poeta florentino.

FILOSOFIA, RAZÃO, FÉ, ORTODOXIA

"O Infinito é Deus. Dante é ortodoxo." Segundo o ensaísta, Alighieri estaria alinhado mais com o misticismo de Agostinho do que com o tomismo de Aquino. Mas alguns atribuiriam ao vate italiano "um racionalismo quase moderno", o que seria um erro.

"De importância é o fato de Dante ter construído sua obra conforme as linhas-mestras da filosofia escolástica aristotélico-tomista."

UM REINO ALEGÓRICO

Os animais que se opõem veementemente à entrada de Dante na descida para o Inferno, a visão de Beatriz transfigurada em outra...alegorias inspiradas por um "ideal político obsoleto."
Apesar desta última e ácida crítica, Carpeaux ressalta a qualidade do satírico em Dante, aspecto mal considerado pela crítica em geral. Comparando-o a outros sátiros clássicos, como Juvenal, Swift e Gogol, diz que "Dante é o maior entre eles."

Outra interessante refutação acerca do autor da Vida Nova,  encontra-se quase ao final do ensaio, quando o crítico afirma, corajosamente, a sua atualidade e modernidade :


"Mas Dante não é poeta romântico e não escreveu só para leitores e leitoras emocionados do século passado..."






sábado, 23 de junho de 2012

EUCALIPTO

Avenida vertical;
Enquanto o sol desfecha
Claros e extasiantes raios
Por entre clareiras abençoadas
E folhagens-rainhas
O braço branco
E o corpo inerte
Amparam-se ao tronco
Ao peito, arrimo
Da árvore mãe
Da amiga enraizada
No limbo do esquecimento:
Castanho, verde, aromático,
Fugaz, vespertino, leve;
Presença do eucalipto - 
 - Purificação em plena mata.
Lembrança do quê mesmo?


(Poema extraído de meu livro "NATURA - POEMAS NATURAIS - 1989)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A NATUREZA E O HOMEM...

COMENTÁRIOS

APRESENTAÇÃO (PÁGINAS 9-10)

"Neste estudo achamos importante observar a recorrência de certos aspectos culturais ou míticos, alguns de fato bastante curiosos, no Romantismo brasileiro..."

Notável em Alencar e nos demais romancistas é o cuidado com o desmonte da arquitetura natural brasileira, que já avançava desmesuradamente naquela época. A vandalização da Mata Atlântica não é um fenômeno recente, ela já nasce com a nossa história. Como observa Georg Friederici, em seu Caráter da Descoberta e Conquista da América Pelos Europeus, livro que todo brasileiro consciente tem a obrigação de ler:

"As magníficas florestas do litoral brasileiro foram assim desaparecendo, sob os golpes do machado europeu, vibrados por mãos de cativos, no afã de desbravar a ferro e fogo novas terras para as plantações....(...) Por volta de 1600, as matas litorâneas já se achavam praticamente destruídas em toda a sua extensão."


POEMA DO DIA

JOSÉ ALBANO

Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me vejo agora isento
Dos sonhos que sonhava noute e dia
E só com saudades me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento,
Senão de ter cantado o que sofria.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011


ANÍBAL MACHADO, UM ESCRITOR MULTIFORME

Para muitos, ele ainda é lembrado como o pai da escritora Maria Clara Machado, a maior expressão do teatro infantil brasileiro. Outros recordarão das famosas reuniões literárias em sua casa na Zona Sul do Rio de Janeiro; Aníbal, o amigo dos escritores amigos, o mineiro que recebia a nata da literatura em sua residência.
Mas quantos Aníbais ainda podemos inferir de sua vasta,variada e diferenciada literatura! Aníbal não explorou o árido terreno do romance, mas consagrou-se na área do conto - é um dos maiores contistas brasileiros, sem dúvida. A Morte da Porta-Estandarte, Tati, a Garota e Viagem aos Seios de Duília, histórias que todos amam ainda, além de consagradas pelo tempo, ganharam respeitáveis adaptações para o cinema.
Sobre Viagem aos Seios de Duília, é importante ressaltar que se trata de um dos contos mais discutidos pela crítica literária. É um daqueles contos que extrapolam sua própria natureza. Como O Alienista, de Machado de Assis, ultrapassa o padrão básico de 15 páginas estabelecido para um conto, aproximando-se mais do formato de uma noveleta, quase um romance.
As personagens de Aníbal, como o atarantado cidadão de outro conto clássico seu, O Piano, como o José Maria de Viagem..., como os trágicos carnavalescos de A Morte da Porta-Estandarte, trazem em si o apequenamento do cidadão comum, do homem na multidão. São retratos do cidadão carioca do subúrbio, sofrido, sonhador, em luta contra seu destino. Neste sentido Aníbal escreve na mesma linha de Marques Rebêlo, Lima Barreto, e João Antônio. Como o João Brandão, criação de outro mineiro sediado no Rio: Carlos Drummond de Andrade...
Além de contista, Aníbal escreveu historietas a que não podemos chamar propriamente de romance: são um misto de prosa, poesia, crônica e reflexões: Vila Feliz, seu livro de estréia, Cadernos de João e João Ternura. Nestes dois últimos são apresentados ao público sua personagem mais famosa.
Há ainda o Aníbal criador de uma faceta única na literatura brasileira. Como caracterizar ABC das Catástrofes e Topografia da Insônia? Mais uma vez a conjunção prosa/lirismo aparece aqui de uma forma mais aguda, para explanar a perplexidade do autor diante de dois dramas cotidianos do ser humano.:Os salvados do incêndio e os insones..... É a crônica dos desajustados:


"Conquanto não seja decente sair sem um arranhão de qualquer desastre, a alegria de quem escapa é proporcional ao número dos que morreram. Essa alegria passa depois a sentimento de orgulho - pela natural tendência do indivíduo a se atribuir poderes mágicos."

(ABC DAS CATÁSTROFES)


"Parece que dormi. Parece. Mas foi um sono falso, de imitação: a prova é que tudo que existe de pior no estado de vigília aproveitou também a ambulância da noite e embarcou comigo."

(TOPOGRAFIA DA INSÔNIA)

BEWITCHED


EURIVAN R. CRUZ
















no dia em que a luz dos teus olhos
provocou a gênese deste satélite errante
estava lançada a semente de minha dispersão

acaso não dorme a tristeza?

mas a felicidade de teu largo riso branco
- cântaro, riqueza e bálsamo -
alaga e alarga e alegra
minhas noites de sombria canção

amo-te, alta mulher, frondosa palmeira
grande coração, humana, simples e encantatória


aos mortais não compete a ambrosia dos deuses

mas sim o feitiço das divas