quarta-feira, 26 de agosto de 2015

1 - GRANDES MOMENTOS

O LIVRO DE JÓ

REZA A TRADIÇÃO LITERÁRIA que toda antologia ou seleta vai de acordo com a cabeça do dono, aquele que com o olho engorda o boi. Antologias são sempre polêmicas, inclusivas e excludentes, e esta não foge à regra. Assim é que esta seleção de 100 grandes livros se inicia de forma pretensiosa e inusitada - o Livro de Jó.
Poderia ter escolhido a própria Bíblia, antologia na qual a narrativa de Jó se insere, mas á parte motivos religiosos, a trágica história do patriarca do Oriente foi escolhida por dois motivos. Primeiro, ela traz em si o componente básico da literatura universal: o sofrimento.
Sem espinho, não há dor, sem dor não há sofrimento, e sem sofrimento não se faz uma literatura plausível. Males físicos, decepções amorosas, rusgas pessoais, misantropia, desespero existencial, a precariedade da vida e a presença da morte cada vez mais próxima - este é o cadinho, esta é a alquimia dos grandes mestres da literatura.
Outro motivo da minha simpatia pelo Livro de Jó deve-se ao fato de eu vir trabalhando nele já há alguns anos, no sentido de desmitificar alguns absurdos amplamente aceitos pela comunidade científica cristã. Para início de conversa, a localização da Terra de Uz, onde se passa a história, não é outra, senão a região do antigo Império Medo-Persa, a famosa região da Bactriana, ao sul da Rússia atual. Ainda há quem sustente que ficava no sul da Arábia(!!!). Venho estudando a natureza neste livro, os animais, as plantas e os fenômenos naturais, com grande surpresa a cada releitura.

O LIVRO - A autoria é atribuída a Moisés, o mesmo autor do Pentateuco (os cinco livros iniciais da Bíblia). E possível que este o tenha realmente escrito, pois o Livro de Jó traz em si traços de uma humanidade muito ancestral, muito, muito antiga,.quase na aurora do mundo. Mas há uma estranha incongruência no capítulo 40, com a menção feita ao Rio Jordão. Se Moisés não entrou na Terra Prometida, como poderia ter ciência deste acidente geográfico? O mesmo vale para os rios citados no segundo capítulo do Gênesis.

INFLUÊNCIA - Sem dúvida, a melhor coisa já escrita sobre ele é Resposta a Jó, do psicanalista suíço Carl G. Jung. Outros autores influenciados foram John Milton, com seu Paraíso Perdido e o húngaro Imre Mádach.com  A Tragédia do Homem.

A HISTÓRIA - No início do livro Jó é um homem rico, solidamente estabelecido, com numerosíssimo rebanho de camelos, ovelhas, bois e jumentas. Provavelmente era um mercador estabelecido na Bactriana, na famosíssima Rota da Seda, que ia dar na China, e é possível que grande parte de seu negócio fosse justamente fornecer montarias para os peregrinos desta mesma rota. Muitos serviçais, pai de dez filhos, e homem temente a Deus - em tudo correto. Tudo lhe ia bem.
É quando entra Satanás na história, imiscuído entre os anjos de Deus, e que começa com este um estranhíssimo diálogo sobre a justiça ou leviandade do comerciante. O que motiva Jó a servir e a temer a Deus?, pergunta Satanás. É seu bem estar, prosperidade e saúde? Para 
provar que nem é tanto assim, o próprio Deus autoriza a que Jó perca tudo, dando domínio a Satanás sobre tudo que concerne ao patriarca - excetuando a própria vida dele.
Assim, de uma hora para outra, as calamidade se sucedem na vida de Jó. Seus rebanhos são dizimados, seus servos, filhos e filhas são todos mortos e suas propriedades caem em poder de salteadores.
Ocorre nova assembléia celeste,e mais uma vez o diabo deblatera com Deus sobre o possível caráter interesseiro de Jó. Mais uma vez  é autorizado a ter domínio sobre Jó - agora sobre a própria saúde deste.
Jó é atacado da cabeça aos pés por tumores malignos, perdendo de vez os amigos e recebendo incompreensão da própria mulher. Aparecem três amigos seus, Elifaz, Bildade e Zofar, vindo de terras distantes, para consolá-lo. Provavelmente ricos mercadores como ele. Até aqui a narrativa, então em prosa, passa a ser um longo e doloroso poema, até o penúltimo capítulo.
Do capiítulo 3 ao 31 há um revezamento oral dos três amigos e de Jó; este procura justificar-se diante de Deus, reafirmando sua justiça e consciência limpa. Os "amigos" procuram imputá-lo das mais torpes acusações: Jó não foi correto diante de Deus o suficiente, não se compadeceu nem procurou ajudar o próximo e tem pecados ocultos, razões pelas quais está sendo castigado. Apesar da dor, da depressão, e da incompreensão, Jó vai rebatendo as acusações, firme até o fim.
Na altura do capítulo 32 surge uma nova e curiosa personagem, Eliú. Este, até então ausente da narrativa e calado em respeito aos mais velhos, irrita-se e resolve "detonar" os falsos amigos de Jó, como um fiel da balança, acusa-os de impiedade e toma a defesa do próprio Deus e passa a repreender o próprio Jó, por se achar "mais justo que o próprio Deus."
No capítulo 38 surge a mais surpreendente das personagens do livro: Deus, ele mesmo, passa a responder a Jó, de uma maneira rude e áspera, porém elegante. É um dos momentos mais belos de toda a literatura. A partir daqui é um espetáculo poético exuberante, feito de perguntas retóricas, num estilo torrencial, tendo a própria natureza como motivo e pano de fundo. Através da criação, reinos animal vegetal e mineral, Deus reafirma sua grandeza.
Os capítulos 40 e 41 trazem as famosas descrições dos monstros fluviais, o Behemoth e e o Leviatã, erroneamente traduzidos como "hipópotamo" e "crocodilo" (o Leviatã do capítulo 42 nada mais é que do que um dragão).
O capítulo 42, final, traz de volta o estilo narrativo do início do livro, Temos então o arrependimento e a confissão da grandeza de Deus por parte de Jó, a ira de Deus contra os falsos amigos do patriarca e a restauração do reino, dos bens e da família de Jó.




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