quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A NATUREZA E O HOMEM...

COMENTÁRIOS

APRESENTAÇÃO (PÁGINAS 9-10)

"Neste estudo achamos importante observar a recorrência de certos aspectos culturais ou míticos, alguns de fato bastante curiosos, no Romantismo brasileiro..."

Notável em Alencar e nos demais romancistas é o cuidado com o desmonte da arquitetura natural brasileira, que já avançava desmesuradamente naquela época. A vandalização da Mata Atlântica não é um fenômeno recente, ela já nasce com a nossa história. Como observa Georg Friederici, em seu Caráter da Descoberta e Conquista da América Pelos Europeus, livro que todo brasileiro consciente tem a obrigação de ler:

"As magníficas florestas do litoral brasileiro foram assim desaparecendo, sob os golpes do machado europeu, vibrados por mãos de cativos, no afã de desbravar a ferro e fogo novas terras para as plantações....(...) Por volta de 1600, as matas litorâneas já se achavam praticamente destruídas em toda a sua extensão."


POEMA DO DIA

JOSÉ ALBANO

Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me vejo agora isento
Dos sonhos que sonhava noute e dia
E só com saudades me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento,
Senão de ter cantado o que sofria.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011


ANÍBAL MACHADO, UM ESCRITOR MULTIFORME

Para muitos, ele ainda é lembrado como o pai da escritora Maria Clara Machado, a maior expressão do teatro infantil brasileiro. Outros recordarão das famosas reuniões literárias em sua casa na Zona Sul do Rio de Janeiro; Aníbal, o amigo dos escritores amigos, o mineiro que recebia a nata da literatura em sua residência.
Mas quantos Aníbais ainda podemos inferir de sua vasta,variada e diferenciada literatura! Aníbal não explorou o árido terreno do romance, mas consagrou-se na área do conto - é um dos maiores contistas brasileiros, sem dúvida. A Morte da Porta-Estandarte, Tati, a Garota e Viagem aos Seios de Duília, histórias que todos amam ainda, além de consagradas pelo tempo, ganharam respeitáveis adaptações para o cinema.
Sobre Viagem aos Seios de Duília, é importante ressaltar que se trata de um dos contos mais discutidos pela crítica literária. É um daqueles contos que extrapolam sua própria natureza. Como O Alienista, de Machado de Assis, ultrapassa o padrão básico de 15 páginas estabelecido para um conto, aproximando-se mais do formato de uma noveleta, quase um romance.
As personagens de Aníbal, como o atarantado cidadão de outro conto clássico seu, O Piano, como o José Maria de Viagem..., como os trágicos carnavalescos de A Morte da Porta-Estandarte, trazem em si o apequenamento do cidadão comum, do homem na multidão. São retratos do cidadão carioca do subúrbio, sofrido, sonhador, em luta contra seu destino. Neste sentido Aníbal escreve na mesma linha de Marques Rebêlo, Lima Barreto, e João Antônio. Como o João Brandão, criação de outro mineiro sediado no Rio: Carlos Drummond de Andrade...
Além de contista, Aníbal escreveu historietas a que não podemos chamar propriamente de romance: são um misto de prosa, poesia, crônica e reflexões: Vila Feliz, seu livro de estréia, Cadernos de João e João Ternura. Nestes dois últimos são apresentados ao público sua personagem mais famosa.
Há ainda o Aníbal criador de uma faceta única na literatura brasileira. Como caracterizar ABC das Catástrofes e Topografia da Insônia? Mais uma vez a conjunção prosa/lirismo aparece aqui de uma forma mais aguda, para explanar a perplexidade do autor diante de dois dramas cotidianos do ser humano.:Os salvados do incêndio e os insones..... É a crônica dos desajustados:


"Conquanto não seja decente sair sem um arranhão de qualquer desastre, a alegria de quem escapa é proporcional ao número dos que morreram. Essa alegria passa depois a sentimento de orgulho - pela natural tendência do indivíduo a se atribuir poderes mágicos."

(ABC DAS CATÁSTROFES)


"Parece que dormi. Parece. Mas foi um sono falso, de imitação: a prova é que tudo que existe de pior no estado de vigília aproveitou também a ambulância da noite e embarcou comigo."

(TOPOGRAFIA DA INSÔNIA)

BEWITCHED


EURIVAN R. CRUZ
















no dia em que a luz dos teus olhos
provocou a gênese deste satélite errante
estava lançada a semente de minha dispersão

acaso não dorme a tristeza?

mas a felicidade de teu largo riso branco
- cântaro, riqueza e bálsamo -
alaga e alarga e alegra
minhas noites de sombria canção

amo-te, alta mulher, frondosa palmeira
grande coração, humana, simples e encantatória


aos mortais não compete a ambrosia dos deuses

mas sim o feitiço das divas

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A NATUREZA E O HOMEM NA LITERATURA BRASILEIRA



COMENTÁRIOS AO LIVRO

II - APRESENTAÇÃO (páginas 7-10)

M.CAVALCANTI PROENÇA, O CRÍTICO QUE AMAVA O BRASIL

Nascido em Cuiabá (MT) em 15 de julho de 1905 e falecido em 15 de dezembro de 1966 (no mesmo dia da morte de Walt Disney) M. (Manuel) Cavalcanti Proença fez a diferença na crítica especializada brasileira entre os anos 40 e 60.
Como apontei nestas páginas iniciais, as terras do Mato Grosso (hoje divididas em dois Estados) foram pródigas em fornecer uma literatura muito interessante, entre a aventura e a busca do conhecimento científico. Literatura essa em termos documentais, como é o caso da Retirada da Laguna, do Visconde de Taunay, sobre uma amarga derrota brasileira na Guerra do Paraguai.
Ou em termos ficcionais, como fez Menotti Del Picchia em A Filha do Inca (obra que teve em sua primeira edição o título de República 3000, depois modificado para não haver conotações políticas), livro pioneiro da ficção científica no Brasil. Ou ainda Inocência, do mesmo Taunay, obra-base de nosso estudo neste livro.

A CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA orgulhosamente ostenta seu brasão de 3 resplandecentes AAA: Afrânio Coutinho, Antônio Cândido e Alfredo Bosi, a tríade referencial para o saber acadêmico (alguém há de querer fazer adendos: Antônio Houaiss, Afrânio Peixoto...)
Mas, apesar dos méritos de sobra da nossa prata acadêmica acima citada, há que se fazer justiça a M.Cavalcanti Proença. Escolhendo um caminho alternativo, mais próximo do público leigo do que do erudito, seus escritos tendem para uma conversação franca e aberta sobre as coisas do interior brasileiro, sobre o homem campesino, sobre a exuberância da natureza do interior do país. Militar de carreira, Proença debruçou-se sobre a vida e a obra de quatro ícones nacionais de nossas letras, perfeitos e acabados retratos de nossa essência: José de Alencar, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade e Guimarães Rosa.
E eis aqui um dado admirável do autor de Manuscrito Holandês: ao contrário da quase totalidade dos críticos literários brasileiros, não optou por fechar com esta ou aquela corrente, seja Romântica ou Modernista; para ele, o nativismo estava acima de tudo. O mesmo poderíamos dizer de Afrânio Coutinho, cujo universo crítico ascende do nacional para o universal.
Poderíamos então afirmar ser Proença um retratista do Brasil, na mesma linha de investigação de Capistrano de Abreu, Paulo Prado e Alberto Rangel, só para citarmos alguns.

MACUNAÍMA

Livro que por si só é um tratado sobre a alma brasileira, em muitos aspectos, com seu jeito de rapsódia, Macunaíma (1928 ), de Mário de Andrade possui uma enorme fortuna crítica, só comparável à de Dom Casmurro, de Machado de Assis, ou Os Sertões, de Euclides da Cunha. Mas dois livros se destacam dos demais, ombreando lado a lado: Morfologia do Macunaíma, do poeta concretista Haroldo de Campos (1929-2003) e Roteiro de Macunaíma, de M. Cavalcanti Proença. Analítico, exegeta, minucioso, este último é um passo-a-passo para se entender a gênese, as variações e as muitas vidas do anti-herói criado pelo líder modernista.

A BAGACEIRA


Duas grandes ironias unem Macunaíma, de Mário de Andrade, e A Bagaceira, de José Américo de Almeida. Lançados no mesmo ano (1928) fundaram correntes diferentes do Modernismo brasileiro, sendo a obra do paraibano considerada o marco inicial do Regionalismo. Correntes diferentes, seguidores ainda mais adversos. Boa parte do corpus da crítica literária brasileira ainda hoje costuma esnobar a importância histórica de A Bagaceira para enaltecer as peripécias de Macunaíma, "herói de nossa gente". Não foi o caso de Proença, que debruçou-se sobre as duas obras, com louvor. Para o livro de José Américo fez um estudo clássico prefacial de aproximadamente 50 páginas, na famosa edição da Livraria José Olympio Editora.


A SUAVE PANTERA



MARLY DE OLIVEIRA













É suave, suave, a pantera,
mas se a quiserem tocar
sem a devida cautela,
logo a verão transformada
na fera que há dentro dela.
O dente de mais marfim
na negrura mais alerta,
e de ser de princípio a fim
a pantera sem reservas,
o fervor, a força lúdica
da unha longa e descoberta,
o êxtase de sua fúria
sob o melindre que a fera,
em repouso, se a não tocam,
como que tem na singela
forma que não se alvoroça
por si só, antes parece,
na mansa, mansa e lustrosa
pelúcia com que se adorna,
uma viva, intensa jóia.



CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA



DALCÍDIO JURANDIR











Voltou muito cansado. Os campos o levaram para longe. O caroço de tucumã o levara também. aquele caroço que soubera escolher entre muitos no tanque embaixo do chalé. Quando voltou já era bem tarde. A tarde sem chuva em Cachoeira lhe dá um desejo de se embrulhar na rede e ficar sossegado como quem está feliz por esperar a morte.

O menino Alfredo é inteligente, sensível e tristonho. Solidário com os dramas públicos de sua família sonha uma vida melhor, onde todos possam viver com mais dignidade. Deseja estudar na cidade grande para, assim, ser um diferencial entre os seus. Mas é difícil romper com as limitações de Cachoeira, cidadezinha às margens do Arari. Extrema pobreza, carestia, doença, incompreensão social e abandono político, aliados à uma natureza quase selvagem marcam o cotidiano desta população na Ilha de Marajó, Estado do Pará. A época: os anos 30.
Desiludido, Alfredo refugia-se em uma singela fantasia: o tucumã, fruto nativo da região, e um dos símbolos da cultura paraense, possui um caroço liso e escorregadio como sabão. O dia inteiro fazendo o caroço deslizar para cima e para baixo, Alfredo cria , desta maneira, sua própria lâmpada de Aladim. Assim prossegue a vida em meio ao horizonte cinzento de Cachoeira: a doença de Eutanázio, as inventividades do Major Alberto, os desmandos políticos da época.

Um dos escritores mais perseguidos pelo regime político do Estado Novo, Dalcídio Jurandir (1909-1979) como suas personagens, teve as mesmas dificuldades no começo de sua vida, passando por muitos subempregos, até ingressar no jornalismo e, posteriormente, no serviço público. Abraçando o socialismo, fez parte de um grupo ilustre de detidos pelo regime de Vargas: Rachel de Queiroz, Nise da Silveira, Graciliano Ramos e Eneida. Seu amigo Jorge Amado, que teve livros queimados pelo mesmo regime, foi quem lhe fez o discurso de saudação na Academia Brasileira de Letras, em 1972, quando recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Nos últimos anos a importância deste escritor paraense tem sido revisitada, havendo um grande interesse por sua obra.
Após Chove nos Campos de Cachoeira, publicado em 1940, a saga de Alfredo e de sua gente prossegue nos livros seguintes de Dalcídio: Marajó (sua obra prima), Três Casas e um Rio e Belém do Grão Pará.